domingo, 24 de junho de 2012

CANTO MOLEQUE


canto do pirralho pirracento
que tem bicho-carpinteiro
e um nariz melequento

canto do moleque maneiro
que leva sempre uma funda
ali no bolso da bunda

canto do mandinho medonho
traquinando na vida
como quem vive num sonho

canto que puxa trança
canto que é de criança
canto quebra-vidraça

canto do riso porteira
escrito feito trapaça
de poetagem arteira

sábado, 23 de junho de 2012

VERSOS VOADORES





versos voadores
se veem voláteis
se leem ao certo
e pelo inverso
se vão voando
pelo universo.

versos  voadores
textos transversos
versos cantores
antiperversos
versejadores
andejos versos

versos voadores
vagam ao vento
velozes asas
inolvidável
voo de ouvido
pousam no peito
apaixonado

(poema nascido em comentário a um poema de Julio Alves)

Desenho de Kestutis Kasparavicius  encontrado em http://i94.photobucket.com/albums/l86/remochka/hudozhniki/Kasparavicius%20Kestutis/Kasparavicius2_8.jpg 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CISMA SÍSMICA






quando cisma
meu amor é um sismo
me abala as estruturas
capaz de mover montanhas
meu amor é Natureza
me arrastando com sua força
a revolver minha vida
pra dar o melhor de mim


Porto Alegre, 30 de maio de 2012

segunda-feira, 28 de maio de 2012

RAINHA DOS JARDINS SUSPENSOS DE ALEXANDRIA




"Alô, minha rosácea 

minha flor de lótus, 

minha rainha dos jardins suspensos 
de Alexandria, (...)"

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos, "Os Nomes da Amada"  in Poesia Errante. Rio de Janeiro: Record/Altaya, 1988.





Não tão famosos
quanto os da Babilônia
nem tão belos talvez,
mas minha amada prefiro
rainha em Alexandria.

A torre de lá, menos alta,
em vez da babel de línguas,
tem uma luz que orienta
gentes de todos os povos
que para lá se dirigem.

Porque esse teu jardim,
é espaço feito pra mim
(também pra ti e pra tantos):
o maior farol de Alexandria,
também seu maior jardim,
se chama Biblioteca.



(Além do poema, a foto também é minha)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Quarta tem sarau em Petrópolis


Nesta quarta-feira, dia 09/05 chegarei a Petrópolis-RJ a convite do Madrigal Maestro Guerra Peixe e da Confraria da Poesia Informal para uma intensa programação que vai até dia 14/05. Já no primeiro dia tem sarau com lançamento do fanzine da Confraria. Finalmente vou conhecer pessoalmente os confrades deste grupo maravilhoso liderado pela poeta petropolitana Catarina Maul, de que venho participando praticamente desde a data de fundação.






Pra quem estiver interessado: Muito em breve tem Confraria da Poesia Informal SUL!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um Convidado Ilustre: Johnn Donne


John Donne foi um poeta, diácono e pastor anglicano nascido em 1572 e morto em 1631, considerado o maior entre os poetas metafísicos ingleses. Se alguém achar estranho um poema como esse sair de um pastor,  gostaria de lembrar que a Igreja Anglicana foi fundada por Henrique VIII - aquele que teve 6 esposas...


Este poema foi traduzido por Augusto de Campos e consta do livro O Anticrítico. Partes dele foram musicadas por Caetano Velloso.



Elegia: Indo para o Leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atlanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.







Ilustram este post
Retrato de Johnn Donne retrabalhado digitalmente por mim
Venus Biding her Hair - John William Godward



domingo, 1 de abril de 2012

AO MÊS QUE ABRIU





na manhã de céu azul
choveu canivete suíço
dona Carmen de seu Raul
tomavam chá de sumiço

pelo céu bem coloridas
voavam vaquinhas leiteiras
animando nossas vidas
enquanto mugiam besteiras

choveu tanto que o rio Nilo
até alagou o Saara
nunca se viu aquilo
camelo com água na cara

e mesmo a Esfinge ruiu
pois era primeiro de Abril.


Renato de Mattos Motta
Porto Alegre, 30/03/2012