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domingo, 20 de julho de 2008

Um Convidado Ilustre: Luís Vaz de Camões


Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.



Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.



Coitado! que em um tempo choro e rio


Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.


Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.


Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;


Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Um convidado Ilustre: João Cabral de Melo Neto

O ovo de galinha

João Cabral de Melo Neto






I


Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.


Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.


No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:


que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.


II


O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.


E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas


cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.


No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.


III


A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.


O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.


A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.


É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.


IV


Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.


Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.


O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:


procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.

sábado, 19 de abril de 2008

Um convidado Ilustre: Antônio Machado

O terceiro e o quarto verso dessa poesia são daquelas citações que todo mundo faz, mas poucos conhecem a fonte.
Tenho uma vizinha que gosta muito de poesia, mas não entende espanhol. Para ela traduzi este poema e posto a tradução depois do original para quem precisa de tradução.
Fiz esta tradução o melhor que pude, mas sempre vejo um problema em traduzir um texto desta língua para o Português: embora sejam línguas muito semelhantes, têm musicalidades diferentes. Portanto, recomendo antes a leitura do texto original. Por que, para este texto, a sonoridade do espanhol funciona muito melhor...



Caminante, no hay camino
Autor: Antonio Machado


Caminante son tus huellas
El camino nada más;
caminante no hay camino
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino
sino estelas sobre el mar.
¿Para que llamar caminos
A los surcos del azar...?
Todo el que camina anda,
Como Jesús sobre el mar.

Yo amo a Jesús que nos dijo:
Cielo y tierra pasarán
Cuando cielo y tierra pasen
mi palabra quedará.
¿Cuál fue Jesús tu palabra?
¿Amor?, ¿perdón?, ¿caridad?
Todas tus palabras fueron
una palabra: Velad.
Como no sabéis la hora
En que os han de despertar,
Os despertarán dormidos
si no veláis; despertad.





Caminhante, não há caminho
Autor: Antonio Machado

(tradução de Renato de Mattos Motta)

Caminhante tuas pegadas
São caminho, nada mais
Caminhante não há caminho
Se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
E ao voltar a vista atrás
Se vê a estrada que nunca
Se vai voltar a pisar
Caminhante não há caminho
Só estrelas sobre o mar.
Para que chamar caminhos
Aos sulcos do azar?
Todo o que caminha anda
Como Jesus sobre o mar

Eu amo a Jesus que nos disse
“Céu e terra passarão
Quando céu e terra passarem
Minha palavra ficará.”
Qual foi Jesus tua palavra?
Amor? Perdão? Caridade?
Todas tuas palavras foram
Uma palavra: Velai.
Como não sabeis a hora
Em que vos vão despertar
Despertar-vos-ão do sono
Se não velais; despertai.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Um convidado ilustre: Drummond

Pra este blog não virar uma egotrip total decidi que, de vez em quando, vou trazer uns convidados ilustres, como este "seu Carlos" de hoje que os portoalegrenses se acostumaram a ver dia e noite conversando com o Quintana ali na Praça da Alfândega.



RECEITUÁRIO SORTIDO

in DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. "Discurso de Primavera e Algumas Sombras"

Calma.
É preciso ter calma no Brasil
calmina
calmarian
calmogen
calmovita.

Que negócio é esse de ansiedade?
Não quero ver ninguém ansioso.
O cordão dos ansiosos enfrentemos:
ansipan!
Ansiotex!
ansiex ansiax ansiolax,
ansiopax, amigos!

Serenidade, amor, serenidade.
Dissolve-se a seresta no sereno?
Fecha os olhos: serenium,
serenex...

Dói muito o teu dodói de alma?
Em seda e sedativo te protejas.
Sedax, meu coração,
sedolin
sedotex
sedomepril.
Meu bem, relaxe por favor.
Relaxan
Relaxatil.
Batem, batem à porta? Relax-pan.

Estás tenso, meu velho?
Tenso de alta tensão, intensa, túrbida?
Atenção: tensoben
tensocren
tensocrin
tensik
tensoplisin.

Anda, cai no sono,
amigo, olha o sonix.
Como soa o sonil
sonipan sonotal
sonoasil
sonobel sonopax!

E fique aí tranqüilo tranquilinho
bem tranquil
tranquilid
tranquilase
tranquilan
tranquilin
tranquix tranquiex
tranquimax
tranquisan
e mesmo tranxilene!

Estás píssico, talvez
de tanto desencucarem tua cuca?
Estás perplexo?
Não ouves o pipilar: psicoplex?
psicodin
psiquim
psicobiome
psicolatil?
Não sentes adejar: psicopax?

Então morre, amizade. Morre presto,
morre já, morre urgente,
antes que em drágea cápsula ampola flaconete
proves letalex
mortalin
obituaran
homicidil
thanatex thanatil
thanatipum!