segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Guerra e Paz

Pra quem não sabe, este é um detalhe do Monumento ao Expedicionário, belíssimo arco do triunfo esculpido por Antônio Caringi e localizado na Redenção, que as autoridades insistem em chamar de Parque Farroupilha. O João-de-barro está com a casa bem protegida!

Urbano III

eu,
poeta urbano,
escrevo com concreto,
plástico, asfalto,
com gasolina, álcool,
gás, diesel
e com monóxido de carbono.

penso na técnica, ouço o ritmo:
britadeiras,
motores,
buzinas engarrafadas,
rimas pobres nos pregões das feiras,
bate-estacas,
boates de lata transitam noturnas,
carroceiros lutam pelo lixo,
cascos e chicotes catraqueando asfalto.

procuro cores,
produzo imagens:
preto-asfalto,
preto-fuligem,
cinza-ar,
cinza-edifício,
cinza-calçada,
marrom-escapamento,
marrom-sarjeta,
boca de lobo entupida.
vermelho-boca-de-puta,
(preocupante
quando pinta faces pueris)
vermelho-sangue-seringa,
vermelho-sangue-assalto,
vermelho-sinal-fechado.

fazer poesia não é fácil!
porque é preciso olhar
com o olhar que desnuda,
que vê verdade e vergonha,
pedintes profissionais
postados na porta dos supermercados,
mães de filhos alugados;
o olhar preciso
que vê
a cola no colo da criança,
que vê a infância
atropelada pela vida.
é preciso olhar
com olhar que vê
a cidade acontecer
e a desvenda em palavras.
palavras que viram pedras,
que ferem ,
que acusam,
mas que também podem cantar
como pássaro
que insiste no vôo
mesmo em meio
à névoa negra
dos escapamentos.

Porto Alegre, 2/08/2008. _______________________________________________________
Este poema começou a ser escrito em 28/07/2008como um comentário ao texto Com o pé no estribo ou A educação pela pedra de José Carlos Brandão no Overmundo: http://www.overmundo.com.br/banco/com-o-pe-no-estribo-ou-a-educacao-pela-pedra e recebeu alguns importantes palpites da Bea CD

domingo, 20 de julho de 2008

Um Convidado Ilustre: Luís Vaz de Camões


Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.



Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.



Coitado! que em um tempo choro e rio


Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.


Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.


Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;


Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

XEQUE




Quando a vida
ia me dar um xeque-mate,
a gata pulou sobre o tabuleiro!
Fez a maior bagunça!
Saiu pela casa
com o rei adversário
transformado em joguete
entre suas patas.
Foi aí que me dei conta
que a vida
é um cheque em branco.

Porto Alegre, julho de 2008

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Pura na Alma


Não precisa de mistura
Só poesia pura
E aquele aperto no peito
Já, já se cura.

Um, Uma, Dois


Um rapaz solitário caminha cabisbaixo.
Uma moça solitária caminha cabisbaixa.
Dois no chão!
Dois juntos caminham. Agora animados.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

haicai (haicat ) de bigodes

Esse haicai nasceu de uma brincadeira com a Mara Faturi que é haicaizeira de primeira e também gateira. No fim, achei que ficou legal, então posto aqui.





Quarto gelado
a pilha de roupas respira
o gato usa cueca no pescoço

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terça-feira, 27 de maio de 2008

DO AMOR



Do amor há muitas lógicas possíveis
da estética à filosófica,
da mercadológica
(que dizem ser a mais antiga)
à química das farmacológicas pílulas celestes.

Tantas visões!
Quanta expectativa!
Inumeráveis fantasias!

Quanto a mim,
do amor nada observo
a não ser - diretamente - o objeto.

Nada espero, a não ser,
talvez,
a suprema graça de ser correspondido
Renato de Mattos Motta
Porto Alegre, fevereiro de 2008