sábado, 10 de janeiro de 2009

poema do amor salgado

(para Chica)


esperma do céu
espuma do mar

acredite,
na concha do biquíni
toda moça é Afrodite


Porto Alegre, 14 de dezembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Relações Textuais

Textos
contradizem textos,
saem de si,
detestam-se.

Textos
falam de
textos
enfocam
fofocam

Um texto
toca outro
texto
contempla
complementa.

Textos
se tocam
se trocam
sentidos

Textos
se testam
se penetram
se fundem

Textos
sem pretextos
procriam

contextos.


Porto Alegre, 23 de maio de 2008

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O porto que era


Esta foto foi tirada num daqueles dias luminosos de inverno que os meteorólogos insistem em descrever com nebulosidade em algum momento mágico da década de 80, quando o cais ainda era Porto (Alegre continua sendo),

alegrias de primavera

Meu Porto,
Alegre porque tem um rio.

Meu Porto,
Alegre porque tem parques.

Meu Porto,
Alegre porque tem pássaros.

Tristeza aqui é só um bairro -
florido que é uma beleza!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Guerra e Paz

Pra quem não sabe, este é um detalhe do Monumento ao Expedicionário, belíssimo arco do triunfo esculpido por Antônio Caringi e localizado na Redenção, que as autoridades insistem em chamar de Parque Farroupilha. O João-de-barro está com a casa bem protegida!

Urbano III

eu,
poeta urbano,
escrevo com concreto,
plástico, asfalto,
com gasolina, álcool,
gás, diesel
e com monóxido de carbono.

penso na técnica, ouço o ritmo:
britadeiras,
motores,
buzinas engarrafadas,
rimas pobres nos pregões das feiras,
bate-estacas,
boates de lata transitam noturnas,
carroceiros lutam pelo lixo,
cascos e chicotes catraqueando asfalto.

procuro cores,
produzo imagens:
preto-asfalto,
preto-fuligem,
cinza-ar,
cinza-edifício,
cinza-calçada,
marrom-escapamento,
marrom-sarjeta,
boca de lobo entupida.
vermelho-boca-de-puta,
(preocupante
quando pinta faces pueris)
vermelho-sangue-seringa,
vermelho-sangue-assalto,
vermelho-sinal-fechado.

fazer poesia não é fácil!
porque é preciso olhar
com o olhar que desnuda,
que vê verdade e vergonha,
pedintes profissionais
postados na porta dos supermercados,
mães de filhos alugados;
o olhar preciso
que vê
a cola no colo da criança,
que vê a infância
atropelada pela vida.
é preciso olhar
com olhar que vê
a cidade acontecer
e a desvenda em palavras.
palavras que viram pedras,
que ferem ,
que acusam,
mas que também podem cantar
como pássaro
que insiste no vôo
mesmo em meio
à névoa negra
dos escapamentos.

Porto Alegre, 2/08/2008. _______________________________________________________
Este poema começou a ser escrito em 28/07/2008como um comentário ao texto Com o pé no estribo ou A educação pela pedra de José Carlos Brandão no Overmundo: http://www.overmundo.com.br/banco/com-o-pe-no-estribo-ou-a-educacao-pela-pedra e recebeu alguns importantes palpites da Bea CD

domingo, 20 de julho de 2008

Um Convidado Ilustre: Luís Vaz de Camões


Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.



Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.



Coitado! que em um tempo choro e rio


Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.


Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.


Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;


Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

XEQUE




Quando a vida
ia me dar um xeque-mate,
a gata pulou sobre o tabuleiro!
Fez a maior bagunça!
Saiu pela casa
com o rei adversário
transformado em joguete
entre suas patas.
Foi aí que me dei conta
que a vida
é um cheque em branco.

Porto Alegre, julho de 2008