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domingo, 7 de setembro de 2014

Patripoema


por um poema da pátria
por um poema auriverdeazulanil
por um poema mundaméricadosulbrasil
um poema de amarAmérica
um poemAmericano de pó e de merda
poemerdAmericano de um povo
que ainda hoje se vende
por bugigangas brilhantes
um poemundo
poimundo
      do pó do mundo
        poema neocolonizado
                                          do brazil de haloweens
um brazil que comemora
festas que não são suas

where'stheformernation?
deformada nação deste poema
caubóis caipiras piram
                              no funk das favelas
                              no reggae
                                    que regateia nossas praias

poema bem      pé no chão
                              pé no asfalto
                              pé no saco
não poema             pé de chinelo
                                    que pede penico pro tio sam
e diz    que é global
            que é mundial
mas      não é!
            o mundo global
                                       é no meu quintal!

sangrentas naus escravistas
singram espaços internacionais
“Galopam, voam, mas não deixam traço.”
chicanegrosdekasseguis
seguem banzando hoje
somos os candangos
                                    do século vinte e um
candongueiros fuleiros canibais
            na falta de palmares
                              palmeiras vira nação
                              timões,  mengos, flus, grenais
e cada vez mais
times te mentem

civilizar não é carnavalizar!
carnal vala de vãs meninas
prostituídas
                        no além mar
                        e no aquém amar
                        no aqui agora
                        no dia a dia
                        no cotidiano adiar do nosso dia

alada vitória da hélade
convertida em chulé multinacional
intermúndico
fungo interdigital
criado no norte
fabricado em seul
consumido em todas as direções
exportado
pago
muito bem pago
pago além do preço

meu poema é   outro
                        tupiniquim      como trypanosoma cruzi
                                               como a trepação da globeleza
                                               rebolando nudez
                                                                nos horários infantis
trepanação
                        que lobotomiza brazis
desculturação da ex-nação
auriverdes travestis fazendo ponto no coliseu
na torre eiffel no reichstag no central park
religiões e relógios de verão
zen budismos sem bunda
desbundes passageiros
módicas modas que mudam nada

belas musas sazonais
desinspiradas ocas
ecos de desespero
vendendo cerveja com a bunda

quero
um poema drummundo
que me desfralde bandeira
me redescubra cabral
americano brasileiro
perdido em minha quintana
um poema coletivo
de papo com affonso e marina
em barco pirata do guaíba
cruzeiro no fundo de casa
com a lua umbigada no lago
onde sidnei submerge seduzido por sereias
o imediato do navio
é o primo portugal
poeta antípoda
e no tombadilho
thiago trava um tête-à-tête
com barros do carmo e barreto
enquanto o fantasma de qorpo santo
folheia sua ensiqlopédia
wernek e patrícia cruzam palavras
com cacau e marodin
júlio alves de cricris
com a macedo e a vieira
michelle de anfitriã
comandando a litania
do sarau improvisado
menegotto na viola
accurso na batucada
laís enfeita as ruas
cidade vira poema

nossa nau da poesia
voa por porto alegre
aporta no meio do brique
pra por poesia na roda
numa abordagem festiva
que subverte a cidade
com o bardo ricardo
cujo menos vendido
é livro esgotado

meu poema insiste
em falar como brasileiro
em ter cheiro de feijoada
de churrasco assado no chão
tutu acarajé maracujá
ter gosto de pitanga
goiaba comida no pé
jabuticaba abacate
abacaxi caju café

meu poema tem que
jogar com bola de meia
rodar pião empinar pipa
papel colorindo o céu
voar lomba abaixo
em carrinho de rolimã
andar de bicicleta
bater figurinha
jogar taco pular sapata
bater bolita de nhaque

tem que ser brasileiro
como carnaval de rua
de antes dos abadás e das escolas
cachaça caldo de cana chimarrão
caipirinha cajuzinho xixi de anjo
cerveja gelada em tarde quente

não quero poema da pátria varonil
quero um poema
do brasil pueril infantil
brasil mulher brasil negrão
japaindiopolaco tudo junto misturado
um poema-brasil
de uma maioria de minorias
salada de frutas
culturalracialetnicaoescambau

poema pau-brasil
que fale português tupi-guarani
italiano alemão banto
espanhol e nagô
poema verdade capaz
de ver além das novelas
além das rebolativas
porta-bandeiras mulatenzoneiras
do carnaval
planetariamente divulgado
sexo oficial
em três vias carimbado
por três dias aprovado
mais a muamba
mais a quarta de cinzas
mais o enterro dos ossos
mais quanta micareta
porque o brasil da televisão
não trabalha
não batalha
só dança samba
reggaeafroaxéreboleichon
só quer saber
quem matou o bandido da vez
no capítulo
visto revisto e repetido
que vira notícia
a novela da tevê se vê
no noticiário da mesma tevê
que tudo vê
menos tu
porque a tevê não te vê
só vê o que dá lucro
só vê o que interessa
pro dono da tevê

este é o poema
que eu fiz pra você
que só vê
o que lhe dizem
que é pra ver

este é o poema
que cheira cola
que fuma crack
que dorme sob marquises
este é o poema
dos ratos e das baratas
chiclé na sola do sapato
poema do lixo revirado
do pedestre atropelado
poema do que você vê
mas não tem nada a ver com você
este é um poema não
este é um poema foi
este é um poema
                                    nunca mais

este é o poema que eu fiz
pra pátria que me pariu!


Porto Alegre, 2013.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Rato

de amarelo sorriso entredentes
mata-rato encardindo o vão dos dedos
a sutil sentinela do alheio
rasteja entre restos de seus roubos
rodente rato roedor de gente
rapace animal que rói e que rapina
de voz melíflua que a todos amofina
só é amigo de seu próprio umbigo

o rato rói toda uma livraria
de papel e de palavra se empanzina
mas pouco aproveita o acepipe
pois só o que sua goela regurgita
é pura papa, fedegosa polpa

acossado por um vira-latas
se refugia às costas de um amigo
mas tão logo a ameaça acaba
já rouba aquele que lhe deu abrigo
nenhum remorso à consciência acossa
e rói rumores ruminando raivas
se foge à luta o literário rato
em restos, latas, lixo se aviva
e arrota seu prato putrefato
arrolando iguarias presuntivas
roubadas de supostas mesas
inatingíveis a sua vileza.

o rato rasteja arrastando amarguras
sem par sequer para amargar um mate
se faz amigos, ele os trai tão cedo
que mais ninguém vem à sua procura
não há quem se arrisque ao resgate
da vida medíocre que se pauta pelo medo.

Porto Alegre, 18/10/2012


domingo, 9 de setembro de 2012

Um convidado Ilustre: V. Maiakovski




Brincadeira gráfica que fiz sobre foto de Igor Amelkovich
com poema de Maiakovski e foto antiga do poeta.

A tradução do russo é dos irmãos campos e Bóris Schneiderman.

(a foto encontrei aqui: http://photo.net/photodb/photo?photo_id=6230723)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Poema da Camiseta



Ontem, durante a edição 13 de Meus Poemas Sou Eu Escrito, discutíamos a relação entre forma e conteúdo, quando meu convidado, Ricardo Mainieri, citou o poema impresso na camiseta que eu vestia. Creio que ainda não o tinha publicado, então ele vai da maneira como entrou na discussão ontem... na camiseta.



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

UNANIMIDADESUMANIDADE





"Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo." (Voltaire)

me criei em um tempo
em que todo mundo
pensava igual
porque era proibido
pensar diferente.

se dizia
"Brasil, ame-o ou deixe-o"
e os que amavam
precisavam fugir.

me criei num Brazil
de unanimidades
e aprendi
que a unanimidade é burra,
que a unanimidade é bruta,
que a unanimidade é uma arma
da mediocridade
pra se fazer importante.

lutei sem armas,
fui clandestino, porque
a unanimidade era a lei
e o silêncio cresceu.

vi  a unanimidade apodrecer.
vi os medíocres caírem
porque não tinham mais
capacidade de calar  
a discórdia.

não sou exatamente cordato,
discordo com veemência,
mas não tiro de ninguém
o direito de pensar.

discordância
é vida;
unanimidade,
morte!

discordo da unanimidade.
discordo do concordismo.
discordo dos discursos bonitinhos.
discordo da concórdia
que cala os adversários.

faço minha
a fala da discórdia!
que todos acordem
e que a concórdia forçada
tenha a força de uma corda
onde os tiranos
se enforquem.

(ilustração: recriação gráfica que fiz sobre foto de Vladimir Herzog)

sábado, 11 de agosto de 2012

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

VERSO SUB VERSO







poetas não respondem
à necessidade capitalista
de produção

poetas respondem
à necessidade humanista
de emoção

poetas são
subversivos
transformam língua em lâmina
e ferem de morte o sentido

poetas são
corruptores
pegam pequenas palavras
e as obrigam a dizer muito

poetas
são loucos

por sorte
são poucos


Porto Alegre, 23/05/2012