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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

...e foi a primeira "Quarta tem Sarau no Quarto" de 2012


Ontem, eu e a Daniela Damaris realizamos o primeiro "Quarta tem Sarau no Quarto" deste ano. Uma edição especial marcando a semana de abertura da exposição de Botero "Dores da Colômbia" voltada exclusivamente à poesia da Colômbia.

Logo que começamos a pesquisa de nomes, destacou-se o de Jaime Jaramillo Escobar, que tem uma poesia forte, irônica e de profundo conteúdo social. Ele é uma importante voz viva da Colômbia, um dos mais destacados representantes do "Nadaísmo" escola que trouxe para a Colômbia as influências estéticas do Dadaísmo, do Surrealismo e dos Beats. Traduzi este poema dele:


Poeta com um revólver
Jaime Jaramillo Escobar
(tradução Renato de Mattos Motta)


Certamente eu não queria ver-te como inimigo, apesar de tudo,
e até gostaria de compartilhar tuas festas brutais e tua perigosa sexualidade,
pois sim bem sei que teu passado é a história de tua
ignorância e tua ignomínia,
tive um amigo que , depois de haver matado a três companheiros me apreciava porque o perdoei.
Entretanto não posso crer em ti quando vens comer em minha mão como um cavalo,
nem quando chegas tua cabeça ao meu peito para aquecer-te enquanto conservas um punhal no bolso,
porque nas casas dos camponeses, assassinaste até os animais, coisa que não consigo compreender;
e me dá dó, irmão, não poder nem sequer tocar-te, pois não nego que és belo.
Por que madrugas a dizer-me todas as manhãs: "me matas ou te mato, mas hoje tem que morrer um dos dois" ?
Não discuto tuas teorias sobre o valor
mas há vezes que meu revólver pesa na cintura mais que uma bala na cabeça,
ainda que saiba que um beijo teu na testa é igualmente pesado e perigoso.

Enroscado na espada do anjo vingador fazes sempre justiça contra os demais,
e nada teme Deus mais que teus olhares.
Tua maldade contradiz tua pequenez
pois o mesmo cravas a ele da cruz que a mim,
ou matas a tiros ao menino negro Emmett Till de quatorze anos em 28 de agosto de 1955
por haver se atrevido a olhar na rua a uma menina branca antes que a Morte a pintasse de negro,
pois tua estupidez não tem limites, o que confirma, em verdade, tua grandeza,
oh Soberano construtor de estrelas durante o dia e bêbado na noite!

Tua presença em lugares obscuros é sempre espiã
e à meia-noite é preferível encontrar-se com Deus do que contigo.

Isto é o que não queria dizer de ti, mas o certo é que só contra ti se exerce vigilância,
todos os cuidados dos homens são para proteger-se de ti, e nada mais espantoso que a ressurreição dos mortos

Tua profissão de incendiário e assassino te enche de orgulho e tens uma estrita contabilidade de tuas vítimas
em livros que teus filhos são obrigados a aprender de cor.

Os séculos passaram inutilmente sobre ti sem que tenhas podido dominar teu instinto de morte e mal
e por isso Lúcifer te reclama. Assim seja! Sei que isso te envaidece,
filho de Eva e a serpente!

Já não se distingue o puro do impuro, todas as coisas se confundiram e não há resgate possível.
Só quando toda a religião tiver desaparecido poderá vir o salvador
pois enquanto um de nossos membros está atado
todo o corpo permanece atado a ele
e com tua mão cortada estás saudando a Morte.

O sacrifício do selvagem é mais puro quanto menos adornado e tecnificado aparece pelos adiantamentos da cultura.
Eis aqui a fórmula para aliviar a pena dos condenados à morte:
Que todo o conhecimento os despoje e se entreguem selvagemmente como um Tezcatlipoca
já que só o júbilo pode triunfar sobre a Morte.
Buscando a Morte perderás o meso pois sua foice imantada
atrai todo o misterioso que há em ti.

Mas duas coisas se contrapõem: a sociedade que te condena
e a liberdade que implica a ignorância, ou seja a sabedoria em sua mais pura manifestação
e por isso se diz na literatura "livre como um pássaro" , pois só a um ser irracional é dado voar por si mesmo, especialmente por ser "por si mesmo"
enquanto que tu, com tuas pretensões de que eu sou teu próximo
me consideras como tua propriedade, o que dá origem a essa luta interminável
dentro da qual somos inimigos por irmandade,
tanto que em vez de gastar o tempo meditando sobre ti deveria estar limpando meu revólver.

Os dois semideuses, o russo e o americano, fariam bem estourar suas bombas megatônicas em teus narizes
e que a Terra continuasse girando no espaço
desocupada como uma caveira
para testemunhar aos séculos quão grande era o mais pequeno dos filhos de Deus.








Quando o sarau já estava quase definido, chega às minhas mãos um pedido de apoio a uma jovem poeta colombiana que vem sendo acusada de crimes que não cometeu: "incitação à revolta" e "Tráfico de Drogas". A "democracia" colombiana tem 7.500 presos políticos, sendo 90% de civis e apenas 10% de membros das FARC Além de 61.604 desaparecidos... mais vítimas que as ditaduras do Chile e da Argentina...
Claro que isso mudou muita coisa... A abertura do sarau foram poesias da moça que se chama Angye Gaona Traduzi um dos poemas dela, que apresento em espanhol primeiro, depois em português:



Cañón adentro
(Angye Gaona)

De Nacimiento volátil

Sigo el camino del esternón,
busco el origen de la sed,
voy al fondo de un cañón de paredes plateadas,
sólidas merced al tiempo,
movedizas cuando el aluvión,
cuando la infancia, era glacial.

Colecto las raicillas del pensamiento.
Las cargo a mi espalda erosionada
junto al agreste olvido que cae de mí.

Se asoman,
desde pequeñas cuevas,
los indicios del dolor;
veloces burlan las miradas
y vuelven a ocultarse en la piel del cañón.

Inscritas en las paredes,
las coordenadas indescifrables
del rayo prehistórico
que formó mi faz.
Tiempo de la hondura,
tiempo sin sílaba,
cuando soy sólo un sonido
en tránsito a la fatiga.

Busco un manantial
que bañe la pregunta adherida a mi historia.
Busco la vida recién nacida
y hallo la sed.

Sigo la senda del esternón.


Perau adentro
(Angye Gaona
tradução: Renato de Mattos Motta)

De Nascimento volátil

Sigo o caminho do osso do peito,
busco a origem da sede,
vou ao fundo de um perau de paredes prateadas,
sólidas mercê ao tempo.
movediças quando aluvião,
quando a infância era glacial.

Coleto as radículas do pensamento.
As carrego na espalda erodida
junto ao agreste olvido que cai de mim.

Se assomam,
desde pequenas covas,
os indícios da dor
velozes burlam as visões
e voltam a ocultar-se na pele do perau.

Inscritas nas paredes,
as coordenadas indecifráveis
do raio pré-histórico
que formou minha face.
Tempo da fundura,
tempo sem sílaba,
quando sou só um som
em trânsito à fadiga

Busco um manancial
que banhe a pergunta aderida à minha história.
busco a vida recém nascida
e acho a sede.

Sigo a senda do osso do peito.

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