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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Tempoemeira remando na blogsfera!


TEMPOEMEIRA

Para Juliana Meira

O tempo, ema,
Corre corre corre
Menos no teu poema
Onde transcorre
Como tarde espreguiçosa
No lombo dum gato

Tempo – tempo – tempo
Que incendeia o dia-a-dia
Menos no teu poema
Onde é lua cheia
Na geada fria

O tempo é fera
Voraz devorando filhos
Menos no teu poema
Onde é panda pateta
Cirandando como poeta

Nosso tempo tem
Poemas
Poemas com próprio
Tempo
E tem uma Poemeira
Que tece teias na poeira do tempo

Juliana Meira mostra sua produção no blog TEMPOEMA
http://juliana-meira.blogspot.com , que publicou este poema em primeira mão. Conheci seu trabalho no Blog do Alexandre Brito e fiquei impressionado com a qualidade dos poemas. Tão impressionado que de repente me peguei num diálogo poético com a moça.

sábado, 19 de abril de 2008

Um convidado Ilustre: Antônio Machado

O terceiro e o quarto verso dessa poesia são daquelas citações que todo mundo faz, mas poucos conhecem a fonte.
Tenho uma vizinha que gosta muito de poesia, mas não entende espanhol. Para ela traduzi este poema e posto a tradução depois do original para quem precisa de tradução.
Fiz esta tradução o melhor que pude, mas sempre vejo um problema em traduzir um texto desta língua para o Português: embora sejam línguas muito semelhantes, têm musicalidades diferentes. Portanto, recomendo antes a leitura do texto original. Por que, para este texto, a sonoridade do espanhol funciona muito melhor...



Caminante, no hay camino
Autor: Antonio Machado


Caminante son tus huellas
El camino nada más;
caminante no hay camino
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino
sino estelas sobre el mar.
¿Para que llamar caminos
A los surcos del azar...?
Todo el que camina anda,
Como Jesús sobre el mar.

Yo amo a Jesús que nos dijo:
Cielo y tierra pasarán
Cuando cielo y tierra pasen
mi palabra quedará.
¿Cuál fue Jesús tu palabra?
¿Amor?, ¿perdón?, ¿caridad?
Todas tus palabras fueron
una palabra: Velad.
Como no sabéis la hora
En que os han de despertar,
Os despertarán dormidos
si no veláis; despertad.





Caminhante, não há caminho
Autor: Antonio Machado

(tradução de Renato de Mattos Motta)

Caminhante tuas pegadas
São caminho, nada mais
Caminhante não há caminho
Se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
E ao voltar a vista atrás
Se vê a estrada que nunca
Se vai voltar a pisar
Caminhante não há caminho
Só estrelas sobre o mar.
Para que chamar caminhos
Aos sulcos do azar?
Todo o que caminha anda
Como Jesus sobre o mar

Eu amo a Jesus que nos disse
“Céu e terra passarão
Quando céu e terra passarem
Minha palavra ficará.”
Qual foi Jesus tua palavra?
Amor? Perdão? Caridade?
Todas tuas palavras foram
Uma palavra: Velai.
Como não sabeis a hora
Em que vos vão despertar
Despertar-vos-ão do sono
Se não velais; despertai.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

um amor de gato



Gosto de gatos porque são absolutamente sinceros e confiáveis. Eles não mentem. Apenas não são muito chegados a explicações.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Coisas das musas - A Flor e o Asfalto

Poeta que se preza é servo das musas.

E não tô falando (apenas) daquelas beldades com pouca ou nenhuma roupa que a mídia periódicamente elege: Musa disto ou daquilo. Do carnaval, do verão, da cerveja...

Não.

Falo das nove.

Das nove filhas de nove noites de amor entre Zeus e Mnemósine... coisa antiga...

Pois as musas me pegaram hoje, durante o sono, e me arrastaram prum diálogo com o Carlos que eu já tinha citado há uns dias por aqui. E me obrigaram a me apropriar dumas idéias drummondianas...

Acordei com isto na cabeça e não sosseguei enquanto não escrevi. Escrevi e tentei esquecer e dar um tempo de gaveta (embora hoje minha gaveta sejam os clusters do HD) - pensar antes de postar... não deu!

Se ninguém gostar, paciência! A culpa não é minha. Foram as Nove que me obrigaram a postar. Eu sou apenas um humilde servo...




A FLOR E O ASFALTO



Preso ainda às convenções
Visto preto, cor do meu tempo
Mas a rua, seu Carlos,
Continua cinzenta
Tudo ainda está à venda
E arma alguma autorizaria revolta

Este é o tempo da justiça, afinal,
Não a justiça bondosa –
De bronze, de prata, de ouro –
Justiça da ira divina
Do fogo descontrolado
Que mata a nossa mata
De terra que sacode escombros
Como quem dá de ombros
De um ar sujo e furioso
Desembestado em tempestades
De águas que retornam
Sujas e podres como o mundo
Como o nosso mundo
Águas que inundam
Águas que lavam
Águas que levam tudo por diante
Águas que afogam velhos, crianças, bombeiros
Mais fortes que a força
Justiça de Gaia febril
Infectada de humanidade.

Mas mesmo em um mundo revolto
Ainda há tardes amenas
Caminho pelo meu Porto
Alegre ao menos no nome
Seduções em calças justas
Encurvam meu pescoço
O ar está luminoso
Embora a fumaça dos carros
Pardais pipilam,
Mas não param
De catar comida no lixo,
Da janela do edifício,
Um gato observa os pardais
Frustrado pelo vidro fechado.
Ao meu lado, um som
Não é alto, mas diferente
Não o crepitar de folhas secas
Nem papel desfraldado ao vento
É som mais pesado, embora leve
Ao meu lado, um som bate no chão
É leve, mas tem o peso
De uma vida, que se vai

Uma flor morreu na rua!
Não era forte como aquela do Carlos
Embora fosse mais bela
Bateu no chão preto e ficou
Vermelha, marcando sangue
Uma flor solta no asfalto
Uma flor morta no asfalto
Uma flor!

Pés
Pneus,
Vento,
Chuva,
Garis com suas vassouras
Se encarregarão de levá-la
Mas ela ficará
Na minha lembrança
(E na foto mortuária que tirei)
Longe,
Lá no pólo,
Uma geleira se desfaz
Chorando a flor que se foi
Ou, talvez, chore por outras,
As flores que nunca foram.


Renato de Mattos Motta


Porto Alegre, 14 de abril de 2007

domingo, 13 de abril de 2008

Post-Poema 3 - Lixo


Esta é uma daquelas sincronias que acontecem e a gente custa a se dar conta...

fiz primeiro o poema. A foto saiu no máximo um mês depois e é registro de uma cena real. A foto do bebê estava realmente jogada na calçada sobre uma tampa de bueiro.

Levou meses pra eu perceber que a foto e o texto pertenciam-se mutuamente.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Um convidado ilustre: Drummond

Pra este blog não virar uma egotrip total decidi que, de vez em quando, vou trazer uns convidados ilustres, como este "seu Carlos" de hoje que os portoalegrenses se acostumaram a ver dia e noite conversando com o Quintana ali na Praça da Alfândega.



RECEITUÁRIO SORTIDO

in DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. "Discurso de Primavera e Algumas Sombras"

Calma.
É preciso ter calma no Brasil
calmina
calmarian
calmogen
calmovita.

Que negócio é esse de ansiedade?
Não quero ver ninguém ansioso.
O cordão dos ansiosos enfrentemos:
ansipan!
Ansiotex!
ansiex ansiax ansiolax,
ansiopax, amigos!

Serenidade, amor, serenidade.
Dissolve-se a seresta no sereno?
Fecha os olhos: serenium,
serenex...

Dói muito o teu dodói de alma?
Em seda e sedativo te protejas.
Sedax, meu coração,
sedolin
sedotex
sedomepril.
Meu bem, relaxe por favor.
Relaxan
Relaxatil.
Batem, batem à porta? Relax-pan.

Estás tenso, meu velho?
Tenso de alta tensão, intensa, túrbida?
Atenção: tensoben
tensocren
tensocrin
tensik
tensoplisin.

Anda, cai no sono,
amigo, olha o sonix.
Como soa o sonil
sonipan sonotal
sonoasil
sonobel sonopax!

E fique aí tranqüilo tranquilinho
bem tranquil
tranquilid
tranquilase
tranquilan
tranquilin
tranquix tranquiex
tranquimax
tranquisan
e mesmo tranxilene!

Estás píssico, talvez
de tanto desencucarem tua cuca?
Estás perplexo?
Não ouves o pipilar: psicoplex?
psicodin
psiquim
psicobiome
psicolatil?
Não sentes adejar: psicopax?

Então morre, amizade. Morre presto,
morre já, morre urgente,
antes que em drágea cápsula ampola flaconete
proves letalex
mortalin
obituaran
homicidil
thanatex thanatil
thanatipum!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

post-poema 2 - Redenção


De longe o meu recanto preferido de Porto Alegre:
Segundo as autoridades é o Parque Farroupilha.
Pro povo, antes mesmo de ser parque, é a Redenção.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

do Pau de Poemas

Pau de Poemas foi um álbum de seis gravuras com cinco poemas que lancei em 1987. Ano passado, a pedido do Mário Pirata, lancei a segunda edição, colorizada no computador, com impressão a laser em papel couchê fosco 300g. O formato é aproximadamente 42cm de altura por 15cm de largura




quarta-feira, 2 de abril de 2008

...e por falar em sabiá...


Mexendo nos meus alfarrábios encontrei um texto antiguinho que tem tudo a ver, mesmo que ninguém mais use máquinas de escrever (a não ser o Mino Carta!):

No trabalho...
Adentra a sala fera em fúria falando a fala do trovão.
- Precisamos aumentar a produção!
O escritório precipita-se na azáfama. Eleva-se rugido das diversas máquinas datilografando em uníssono.
De repente, o silêncio.
Um sábiá pousou no parapeito, inflou o peito alaranjado e cantou. cantou!
Pessoas pararam para ouvir. O escritório, a empresa, a cidade... tudo parou para escutar a natureza falar sem palavras...
- Precisamos aumentar a emoção!

Porto Alegre, 28/10/1986 (eu avisei que era antigo!)